Classe III: por que anos de aparelho podem não resolver?

Tempo de aparelho não é medida de tratamento. Seis anos com bráquetes na boca podem significar seis anos de um plano que não enxergou o problema certo. Foi o que vi no caso de Classe III que publiquei no Instagram: um paciente que chegou ao consultório depois de um tratamento longo, sem alcançar o que esperava. Quero explicar por que isso acontece com a Classe III mais do que com qualquer outra má oclusão.

Aparelho ortodôntico sobre modelo de gesso
Aparelho sobre modelo: o aparelho move dentes, não a base óssea da mandíbula. Imagem: rawpixel.com, domínio público (CC0).

O que é a Classe III

Na oclusão considerada normal (Classe I), os dentes superiores ficam ligeiramente à frente dos inferiores. Na Classe III, a relação se inverte: os dentes inferiores ficam à frente, ou de topo, em relação aos superiores. O paciente percebe isso como “queixo para a frente”, dificuldade para cortar com os dentes da frente ou um perfil côncavo.

O que a boca mostra é a parte visível. A origem pode estar em três lugares diferentes, e é essa diferença que decide o tratamento.

Três origens, três tratamentos

A primeira é dentária: os ossos estão em posição adequada e apenas os dentes estão inclinados de forma errada. É a forma mais simples, e o aparelho, fixo ou alinhador, resolve com movimentos de inclinação.

A segunda é esquelética por deficiência de maxila: o osso superior cresceu pouco para a frente. É a forma mais comum na Classe III, e a resposta ao tratamento depende muito da idade. Baccetti, Franchi e McNamara (2004) mostraram que a tração da maxila com máscara facial tem efeito esquelético maior quando começa antes do pico de crescimento, em geral antes dos 10 anos. Depois disso, o mesmo aparelho produz mais efeito dentário e menos ósseo.

A terceira é esquelética por excesso de mandíbula: o osso inferior cresceu demais. Em adulto, quando a discrepância é grande, a correção passa pela cirurgia ortognática combinada com ortodontia. Quando a discrepância é moderada, existe a opção de camuflagem: compensar a posição dos dentes para esconder o desajuste ósseo, aceitando que o perfil não muda.

O tratamento que não resolve, na maior parte dos casos que recebo, é o que tratou uma origem esquelética como se fosse dentária. O aparelho move dentes; ele não muda o tamanho dos ossos em um adulto. Anos de mecânica sobre um problema de base óssea produzem dentes inclinados demais, gengiva retraída e a mesma queixa do início.

O que o diagnóstico precisa incluir

Uma Classe III não se diagnostica olhando só para os dentes. O exame que faço inclui a análise do perfil facial, a radiografia cefalométrica com traçado (que mede a posição de maxila e mandíbula em relação à base do crânio), a fotografia padronizada e, cada vez mais, o escaneamento digital das arcadas para simular os movimentos antes de prescrever qualquer aparelho.

Ngan e Moon (2015) resumem bem o critério: a escolha entre tratamento precoce, camuflagem e cirurgia depende da magnitude da discrepância, da idade e do padrão de crescimento, não do aparelho que o profissional prefere usar. Um planejamento que não mede a discrepância não tem como escolher.

Fixo ou alinhador na Classe III

Nos casos dentários e nas camuflagens moderadas, o alinhador transparente é uma opção com boa previsibilidade para inclinações e nivelamento. Nos casos que exigem controle de torque radicular intenso ou preparo para cirurgia, o aparelho fixo ainda oferece mais controle. Sou credenciada Invisalign e uso o sistema quando ele é a ferramenta adequada ao movimento, não como resposta padrão.

Onde a ortodontia tem limite

Um adulto com Classe III esquelética severa que não deseja cirurgia precisa saber, antes de começar, que a camuflagem melhora a mordida e não altera o perfil. Uma criança com Classe III em crescimento precisa ser acompanhada até o fim do crescimento, porque a mandíbula pode continuar crescendo depois de uma correção precoce bem-sucedida. Nenhum desses limites é um problema quando é dito no início. Vira problema quando é descoberto no sexto ano.

Se você ou seu filho já usam aparelho há muito tempo sem ver o resultado se aproximar, a pergunta que vale fazer ao ortodontista é simples: qual é a origem da minha Classe III, e o plano atual atua nela?

Mais sobre o tema em ortodontia e Invisalign em Limeira. Para agendar uma avaliação com escaneamento, fale com a Cris pelo WhatsApp.

Dra. Daniela Belisario Baroni — CRO-SP 93.949 — Graduada e mestre pela UNICAMP; especialista em Ortodontia; credenciada Invisalign. Instituto Baroni Vosiacki, Av. Saudades 1569, Limeira-SP.

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