Toda tecnologia em odontologia precisa responder a uma pergunta simples antes de qualquer outra: em que caso ela muda a conduta? Se a resposta não existe, a tecnologia é acessório. Escrevo este texto porque o ozônio é hoje um dos assuntos em que mais se confunde o que a evidência sustenta com o que se gostaria que ela sustentasse — e sou habilitado em ozonioterapia pelo CFO, o que me obriga a ser mais criterioso, não menos.
O que o ozônio é, do ponto de vista físico-químico
O ozônio é uma molécula formada por três átomos de oxigênio. Essa configuração é instável: a molécula tende a se decompor, e nesse processo ela oxida o que estiver ao alcance. É daí que vem toda a sua ação — não de nenhuma propriedade especial além dessa. Em contato com a membrana de bactérias, fungos e com o envelope de alguns vírus, a oxidação rompe estruturas lipídicas e proteicas e inativa o microrganismo. O efeito é local, é de contato e dura enquanto a molécula existe, que é pouco tempo.
Entender isso já resolve metade das dúvidas. Uma substância que age por oxidação de contato e se decompõe em segundos não tem como produzir efeito sistêmico duradouro no organismo. O que ela faz, faz onde é aplicada.

Onde o ozônio tem indicação dentro da odontologia
O Conselho Federal de Odontologia reconhece a habilitação do cirurgião-dentista em ozonioterapia, e o uso permitido é o de âmbito odontológico. Na prática de consultório, ele aparece como recurso coadjuvante — nunca como substituto:
- Desinfecção complementar em endodontia. Depois do preparo químico-mecânico do canal, que continua sendo o que determina o resultado. Não substitui o hipoclorito de sódio, não substitui a instrumentação e não compensa um canal mal preparado.
- Lesões de tecido mole. Aftas e lesões herpéticas recorrentes, com aplicação tópica sobre a lesão já instalada.
- Alvéolo pós-exodontia. Como medida local de controle microbiano no sítio cirúrgico.
- Periodontia. Coadjuvante da raspagem, que segue sendo o tratamento propriamente dito.
- Lesões iniciais de cárie. Aqui a evidência é a mais discutida de todas.
O que a literatura diz — inclusive o que ela não confirma
Uma revisão sistemática conduzida por Azarpazhooh e Limeback, publicada no Journal of Dentistry em 2008, avaliou as aplicações do ozônio em odontologia e concluiu que a evidência disponível não sustentava seu uso como substituto do tratamento convencional da cárie. Uma revisão Cochrane sobre o mesmo tema, de Rickard e colaboradores, chegou a conclusão semelhante: os ensaios existentes eram poucos e metodologicamente limitados demais para embasar uma recomendação.
Não cito isso apesar de trabalhar com ozônio. Cito porque trabalhar com um recurso exige conhecer o tamanho real dele. O que essas revisões dizem é que o ozônio não substitui o que já funciona. Isso é diferente de dizer que ele não serve para nada — é dizer que o lugar dele é o de complemento, dentro de um plano de tratamento que se sustenta sozinho.

O que o ozônio não é
Esta parte precisa ser dita com clareza, porque circula muita informação em sentido contrário:
- Não é tratamento para o sistema imunológico e não fortalece as defesas do organismo.
- Não faz desintoxicação de qualquer natureza.
- Não trata doenças fora da boca, nem é indicado por um cirurgião-dentista para essa finalidade — isso está fora do escopo da odontologia.
- Não substitui antibiótico quando há indicação de antibiótico.
- Não substitui o tratamento de canal, a restauração ou a raspagem periodontal.
Segurança
O ozônio é um gás irritante para a via respiratória quando inalado. Por isso o uso odontológico é feito em concentração controlada, com equipamento próprio, aplicação restrita ao sítio de interesse e sucção adequada. Não é recurso para aplicação doméstica nem para uso sem indicação. Tem contraindicações que precisam ser avaliadas caso a caso — deficiência de G6PD e gestação estão entre as que devem ser investigadas antes.
Como isso entra na conduta
Na minha rotina, o ozônio entra quando existe uma razão específica para ele entrar, dentro de um plano que já se justifica sem ele. Se a decisão clínica não muda com a presença do recurso, ele não é usado. É esse o critério, e vale para o ozônio como vale para o laser, para o microscópio e para qualquer outra coisa que se compre para um consultório.
Se você tem dúvida sobre um caso específico, o caminho é avaliar o caso.
Dr. Rodrigo Vosiacki Rossi — CRO-SP 89.707. Cirurgião-dentista, especialista em Endodontia e em Implantodontia, habilitado em Ozonioterapia pelo CFO. Limeira-SP.
