Reabilitação oral: por que a posição da mandíbula é definida antes dos dentes?

Acredito que nenhuma reabilitação oral começa pelos dentes. Começa pela mandíbula. Antes de decidir formato, cor ou material de uma prótese, é preciso decidir em que posição a mandíbula vai fechar. Se essa decisão vem depois, o trabalho nasce com um erro que nenhuma porcelana corrige.

Este texto nasceu de um caso que publiquei no Instagram: uma reabilitação de grande complexidade, com implantes em zircônia, próteses em porcelana e zircônia e aumento da dimensão vertical de oclusão por desgaste dentário. Vale explicar o raciocínio que está por trás dele.

Modelos de gesso montados em articulador odontológico
Modelos montados em articulador: a posição da mandíbula é registrada antes de planejar os dentes. Imagem: rawpixel.com, domínio público (CC0).

O que é relação cêntrica e por que ela vem primeiro

Relação cêntrica é a posição em que os côndilos (as “cabeças” da mandíbula) assentam na parte mais anterior e superior da articulação temporomandibular, com o disco articular interposto. É uma posição determinada pela articulação e pela musculatura, não pelos dentes. Por isso ela é reprodutível: pode ser encontrada no exame clínico, registrada e transferida para o articulador.

Dawson (2007) descreve essa posição como o único ponto de partida fisiológico para uma oclusão estável. O motivo é simples de entender: quando os dentes fecham antes de os côndilos assentarem, a mandíbula desliza para acomodar o contato. Esse deslize obriga os músculos a segurar a mandíbula fora da sua posição de repouso, o dia inteiro.

Em um paciente com dentes íntegros, o corpo em geral tolera esse desvio. Em um paciente que já perdeu estrutura por desgaste, o desvio costuma vir acompanhado de sensibilidade muscular, ruído articular e fraturas repetidas de restaurações.

Máxima intercuspidação igual a relação cêntrica: a meta do trabalho

Quando reabilitamos toda a arcada, temos uma oportunidade rara: fazer com que a posição de encaixe máximo dos dentes (máxima intercuspidação) coincida com a relação cêntrica. É o que chamamos de oclusão organizada em relação cêntrica.

Na prática, isso significa que a mandíbula fecha onde a articulação quer fechar, e os dentes recebem a carga nessa mesma posição. Não há deslize, não há contato prematuro e a força mastigatória se distribui pelo eixo longo dos dentes e dos implantes.

O caso do Instagram foi conduzido assim: primeiro o registro da relação cêntrica, depois o enceramento diagnóstico no articulador, depois as próteses provisórias para testar a nova dimensão vertical, e só então as peças definitivas.

Aumento de dimensão vertical: quando e quanto

O desgaste dentário generalizado reduz a altura do terço inferior da face. Recuperar essa altura é parte do planejamento, mas não é decisão livre. A revisão sistemática de Abduo e Lyons (2012) mostra que aumentos de até cerca de 5 mm, medidos na região dos incisivos, costumam ser bem tolerados quando conduzidos com provisórios e acompanhamento. Acima disso, o risco de desconforto muscular sobe.

O provisório é a etapa que muita gente quer pular. É ela que mostra, em semanas, se a nova posição é confortável para mastigar, falar e dormir. Sem essa fase de teste, a prótese definitiva é uma aposta.

Implantes e próteses em zircônia: o que o material muda

A zircônia é uma cerâmica policristalina, sem metal. No implante, a revisão de Roehling e colaboradores (2018) reporta sobrevida acima de 95% em um ano para implantes de zircônia de peça única, com literatura de longo prazo ainda menor que a do titânio. Esse é o limite que sempre declaro: o titânio tem décadas de acompanhamento; a zircônia tem anos.

Na prótese, a zircônia permite estruturas resistentes com espessura menor e sem a linha cinza da infraestrutura metálica na margem gengival. Em pacientes que relatam sensibilidade a metais, ou que simplesmente preferem não ter metal na boca, é uma alternativa com base para ser indicada. Não é uma alternativa para todo caso.

Onde esse planejamento não resolve sozinho

Paciente com dor articular ativa, com deslocamento de disco sem redução ou com bruxismo intenso não controlado precisa de tratamento da DTM antes de qualquer reabilitação definitiva. Nesses casos, uso a placa oclusal em relação cêntrica como fase de estabilização, e só avanço quando a articulação está sem sintomas e a posição se mantém reprodutível em consultas seguidas. Reabilitar uma boca com a articulação inflamada é construir sobre terreno que se move.

Também não faço reabilitação extensa sem tomografia e escaneamento digital. A tomografia define o osso disponível para o implante; o escaneamento permite planejar a prótese antes da cirurgia e instalar o implante na posição que a prótese precisa, não o contrário.

Se você tem desgaste generalizado, restaurações que fraturam sempre no mesmo lugar ou cansaço na face ao acordar, a pergunta certa antes de trocar qualquer prótese é: em que posição sua mandíbula está fechando hoje?

Mais sobre o tema em reabilitação oral em Limeira e em relação cêntrica e placa oclusal. Para agendar uma avaliação, fale com a Cris pelo WhatsApp.

Dr. Rodrigo Vosiacki Rossi — CRO-SP 89.707 — Graduação UNICAMP; Endodontia (São Leopoldo Mandic); Implantodontia (ABO). Instituto Baroni Vosiacki, Av. Saudades 1569, Limeira-SP.

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